Agroneg√≥cio, um modelo esgotado‏
Publicado em 28/10/2013
Vandana Shiva (foto), cientista indiana mundialmente conhecida, falou sobre as consequências da chamada Revolução Verde e denunciou o controle das transnacionais na abertura do III Encontro Internacional de Agroecologia, em Botucatu, interior de São Paulo.

06/08/2013

Péricles de Oliveira de Botucatu (SP)

Perante uma atenta plateia composta por mais de 3 mil pessoas, a renomada cientista indiana Vandana Shiva fez uma palestra de uma hora, respondeu a perguntas e encantou a todos com suas ideias, experi√™ncias e convic√ß√Ķes, durante a abertura do III Encontro Internacional de Agroecologia, no dia 31 de julho, na cidade de Botucatu, interior de S√£o Paulo.

Vandana foi muito contundente ao longo de toda a sua fala. Come√ßou contando de sua vida, de como havia estudado biologia e f√≠sica qu√Ęntica na universidade e de como se considerava uma pessoa alienada da realidade do mundo.

Esclareceu que o choque que a fez despertar foi um grave acidente ocorrido, 30 anos atr√°s, numa f√°brica de pesticidas ‚Äď que resultou numa trag√©dia, com a morte de mais de 35 mil indianos. A partir da√≠, √© que ela acaba se convertendo √† causa do povo e n√£o para mais de pesquisar a a√ß√£o das empresas transnacionais sobre a agricultura.

Hoje, ela √© considerada uma das principais pesquisadoras dos malef√≠cios para a sa√ļde humana e para a destrui√ß√£o da biodiversidade que as sementes transg√™nicas e os agrot√≥xicos das empresas transnacionais v√™m causando em todo o mundo.

‚ÄúRevolu√ß√£o Verde‚ÄĚ

Vandana falou sobre as consequências da chamada Revolução Verde, imposta pelo governo dos Estados Unidos, na década de 1960, a toda a sua área de influência como forma de vender mais insumos agroquímicos e suas mercadorias agrícolas.

O resultado disso ‚Äď o de subjugar pa√≠ses e camponeses ‚Äď pode ser visto hoje, j√° que 65% de toda a biodiversidade e dos recursos de √°gua doce do planeta foram contaminados por agrot√≥xicos.

Al√©m disso, h√° estudos comprovando que 40% de todo o efeito estufa que afeta o clima no planeta √© causado pelo uso exagerado, desnecess√°rio, de fertilizantes qu√≠micos na agricultura. Chegou a dizer, inclusive, que em muitas regi√Ķes da Europa, em fun√ß√£o da mortandade e desaparecimento das abelhas, a produtividade agr√≠cola j√° teria ca√≠do 30%.

A indiana atentou para o fato de que se f√īssemos calcular os preju√≠zos e custos necess√°rios para repor a biodiversidade e reequilibrar o meio ambiente com vistas a amenizar os desequil√≠brios clim√°ticos, eles seriam maiores, em d√≥lares, do que todo o com√©rcio de commodities que as empresas realizam.


Genocídio

Em rela√ß√£o √† a√ß√£o das empresas transnacionais que atuam na agricultura ‚Äď como Monsanto, Bunge, Syngenta e Cargill ‚Äď tamb√©m n√£o poupou cr√≠ticas. Denunciou que elas controlam a produ√ß√£o e o com√©rcio mundial da soja, milho, canola e trigo. E que fazem propaganda enganosa dizendo que a humanidade depende dos alimentos produzidos pelo agroneg√≥cio para sobreviver, quando na pr√°tica a humanidade se alimenta com centenas de outros vegetais e fontes de prote√≠nas, que elas ainda n√£o puderam controlar.

Disse que essas ‚Äúempresas, ao promoverem as sementes transg√™nicas, n√£o inventaram nada de novo. N√£o desenvolveram nada. O √ļnico que fizeram foi fazer muta√ß√Ķes gen√©ticas que existem na natureza para viabilizar a venda de seus agrot√≥xicos‚ÄĚ.

Citou que a Monsanto conseguiu controlar a produ√ß√£o de algod√£o na √ćndia, apoiada por governos subservientes, neoliberais, e que hoje 90% da produ√ß√£o depende de suas sementes e venenos. Com isso houve uma destrui√ß√£o do modo campon√™s de produzir algod√£o e um endividamento dos que permaneceram.

A conjunção do alto uso de venenos intoxicantes que levam à depressão e a vergonha da dívida fez com que, desde 1995 até os dias de hoje, houvesse 284 mil suicídios entre os camponeses indianos. Um verdadeiro genocídio escondido pela imprensa mundial e cuja culpada principal seria a Monsanto.

Apesar de tantos sacrif√≠cios humanos, a Monsanto ainda recolhe em seu pa√≠s 200 milh√Ķes de d√≥lares anuais, cobrando royalties pelo uso de sementes geneticamente modificadas de algod√£o.

Mais de 3 mil pessoas participaram da palestra dada pela cientista indiana Vandana Shiva - Foto: EIA


Commodities n√£o s√£o alimentos

O modelo do agroneg√≥cio √© apenas uma forma de se apropriar do lucro dos bens agr√≠colas, mas ele n√£o resolve os problemas do povo. Tanto √© que aumentamos muito a produ√ß√£o, poder√≠amos inclusive abastecer 12 bilh√Ķes de pessoas [quase o dobro da popula√ß√£o mundial], mas, no entanto, temos 1 bilh√£o de pessoas que passam fome todos os dias, sendo 500 milh√Ķes delas camponesas que vivem no meio rural e que tiveram seu sistema de produ√ß√£o de alimentos destru√≠do pelo agroneg√≥cio.

As commodities agrícolas são meras mercadorias agrícolas, não são alimentos. Cerca de 70% de todos os alimentos do mundo ainda são produzidos pelos camponeses.

√Č preciso entender que alimentos s√£o a s√≠ntese da energia necess√°ria que os seres humanos precisam para sobreviver, a partir do meio ambiente em que vivem, recolhendo essa energia d a fertilidade do solo e do meio ambiente.

Quanto maior a biodiversidade da natureza, maior o n√ļmero de nutrientes e mais sadia ser√° a alimenta√ß√£o produzida naquela regi√£o para os humanos. E o agroneg√≥cio destr√≥i a biodiversidade e as fontes de energia verdadeiras.

As empresas lan√ßam m√£o de um fetiche gerado pela propaganda, de que est√£o usando modernas t√©cnicas de biotecnologia para aumentar a produtividade das plantas, mas isso √© um engodo. Quando se vai pesquisar o que s√£o tais biotecnologias, elas s√£o guardadas em segredo. Porque, no fundo, elas n√£o mudam nada na natureza. S√£o apenas mecanismos para aumentar a rentabilidade econ√īmica das grandes planta√ß√Ķes.

Na verdade, a agricultura industrial é a padronização do conhecimento, é a negação do conhecimento sobre a arte de cultivar a terra. Porque o verdadeiro conhecimento é desenvolvido pelos próprios agricultores, e pelos pesquisadores, em cada região, em cada bioma, em cada planta.


Consumidores

O modelo do agroneg√≥cio quer transformar as pessoas apenas em ‚Äúconsumidores‚ÄĚ de suas mercadorias. Vandana nos diz que devemos combater o uso e o reducionismo da express√£o ‚Äúconsumidores‚ÄĚ, que devemos usar o termo ‚Äúseres humanos‚ÄĚ, pessoas que precisam de uma vida saud√°vel. ‚ÄúConsumidor‚ÄĚ indica uma redu√ß√£o subalterna do ser humano.

As empresas do agronegócio dizem que são o desenvolvimento e o progresso. Na prática, chegam a controlar 58% de toda produção agrícola do mundo, porém, dão trabalho para apenas 3% das pessoas que vivem no meio rural. Portanto, o agronegócio é um sistema antissocial.

A indiana revelou ainda que fez parte de um grupo de 300 cientistas de todo mundo que se dedicam a pesquisar a agricultura e que após realizarem diversos estudos, durante três anos, comprovaram que nem a Revolução Verde imposta pelos Estados Unidos, nem o uso intensivo das sementes transgênicas e dos agroquímicos podem resolver os problemas da agricultura e da alimentação mundial. Algo que só pode acontecer por meio da recuperação de práticas agroecológicas que convivam com a biodiversidade, em cada local do planeta.

Vandana concluiu sua cr√≠tica ao modelo do agroneg√≥cio dizendo que ele projeta a destrui√ß√£o e o medo, porque √© concentrador e excludente. Por isso, tornou-se algo comum o costume dessas empresas amea√ßarem ou cooptarem os cientistas que se op√Ķe a elas.


A saída é a agroecologia

Após criticar duramente o modelo do capital, a cientista dedicou sua palestra a projetar as técnicas ou o modelo de produção da agroecologia como a alternativa popular e necessária para produção de alimentos.

Defendeu que o modelo da agroecologia √© o √ļnico que permite desenvolver t√©cnicas de aumentar a produtividade e a produ√ß√£o sem a destrui√ß√£o da biodiversidade.

Que a agroecologia √© a √ļnica forma de criar empregos e formas de vida saud√°veis para a popula√ß√£o permanecer no campo e n√£o ter de se marginalizar nas grandes cidades. Sobretudo, fez a defesa de que os m√©todos da agroecologia s√£o os √ļnicos que conseguem produzir alimentos sadios, sem venenos.


Dificuldades da transição

Quando perguntada sobre as dificuldades da transi√ß√£o entre os dois modelos, contestou, citando a √ćndia: ‚ÄúN√≥s j√° tivemos problemas maiores na √©poca do colonialismo ingl√™s. No entanto, Gandhi nos ensinou que a nossa fortaleza √© sempre ‚Äėlutar pela verdade‚Äô, porque o capital engana e mente para poder acumular riquezas. Mas a verdade est√° com a natureza, est√° com as pessoas‚ÄĚ.

Dessa energia que emana de Gandhi, Vandana refor√ßou: ‚ÄúSe houver vontade pol√≠tica para fazer a mudan√ßa, se houver vontade para produzir alimentos sadios, ser√° poss√≠vel cultiv√°-los‚ÄĚ.

Vandana concluiu conclamando a todos a se envolverem e participarem do Encontro Mundial de Luta Pelos Alimentos Sadios e Contras as Empresas Transnacionais que a Via Campesina, os movimentos de mulheres e centenas de entidades realizam todos os anos, na semana de 16 de outubro. ‚ÄúPrecisamos unificar as vozes e as vontades em n√≠vel mundial. E essa ser√° uma √≥tima oportunidade.‚ÄĚ


Recomenda√ß√Ķes

Quando perguntada sobre as recomenda√ß√Ķes que daria aos jovens, aos estudantes de agronomia, aos agricultores praticantes da agroecologia, Vandana Shiva elencou seis pontos:

Primeiro: disse que a base da agroecologia √© a preserva√ß√£o e a valoriza√ß√£o dos nutrientes que h√° no solo. Neste instante, a indiana fez refer√™ncia a outra cientista presente na plateia que a assistia muito atenta, a professora Ana Maria Primavesi. ‚ÄúPrecisamos ir aplicando as t√©cnicas que garantam a sa√ļde do solo, e dessa sa√ļde, recolheremos frutos com energia saud√°vel.‚ÄĚ

Segundo: estimular que os agricultores controlem as sementes. As sementes s√£o a garantia da vida. ‚ÄúN√≥s n√£o podemos permitir que as empresas transnacionais transformem nossas sementes em meras mercadorias. As sementes s√£o um patrim√īnio da humanidade.‚ÄĚ

Terceiro: precisamos relacionar a agroecologia com a produ√ß√£o de alimentos saud√°veis que garantam a sa√ļde e assim conquistar os cora√ß√Ķes e mentes da popula√ß√£o da cidade, que est√° sendo cada vez mais envenenada pelas mercadorias com agrot√≥xicos. ‚ÄúSe vincularmos os alimentos com a sa√ļde das pessoas, ganharemos milh√Ķes de pessoas da cidade para a nossa causa.‚ÄĚ

Quarto: precisamos transformar os territórios em que os camponeses têm hegemonia em verdadeiros santuários de sementes, de árvores sadias, de cultivo da biodiversidade, da criação de abelhas, da diversidade agrícola.

Quinto: precisamos defender a ideia que faz parte da democracia, a liberdade das pessoas de terem op√ß√Ķes de alimentos. Elas n√£o podem mais serem ref√©ns dos produtos que as empresas colocam nos supermercados de acordo com a sua vontade apenas.

Sexto: precisamos lutar para que os governos parem de usar dinheiro p√ļblico ‚Äď que √© de todo o povo ‚Äď para subsidiar, transferir esses recursos para os fazendeiros. Isso vem acontecendo em todo o mundo e tamb√©m na √ćndia. O modelo do agroneg√≥cio n√£o se sustenta sem os subs√≠dios e vantagens fiscais que os governos lhes garantem.

Foto: EIA

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/15564
 
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